Escolha sua verdade e transforme o mundo

Escolha sua verdade e transforme o mundo
A pintura “A verdade saindo do poço”, de 1896, de autoria do escultor e pintor francês Jean-Léon Gérôme, está ligada a uma parábola do século XIX segundo a qual a Verdade e a Mentira se encontram um dia. A Mentira disse à Verdade: "Hoje é um dia maravilhoso"! A Verdade olha para os céus e suspira, pois o dia era realmente lindo. Elas passaram muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado de um poço. A Mentira disse à Verdade: “A água está muito boa, vamos tomar um banho juntas”!
 
A Verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e descobre que realmente está muito gostosa. Elas se despiram e começaram a tomar banho. De repente, a Mentira sai da água correndo, veste as roupas da Verdade e foge. A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta. O mundo, vendo a Verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva. A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo nele sua vergonha. Desde então, a Mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua.
 
De fato, estamos atolados em mentiras por todo lado, nos mais diversos aspectos da nossa vida. O semiólogo italiano Umberto Eco já havia declarado, em relação à internet: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”. Esse tipo de comportamento é extremamente bem retratado no livro “Como a picaretagem conquistou o mundo: equívocos da modernidade”, do jornalista inglês Francis Wheen. Publicado em 2007, o livro ainda é uma leitura atual sobre a prática de pessoas maldosas, desinformadas e despreparadas comentarem as ideias e fazerem fofoca sobre a vida dos outros, sem o mínimo conhecimento de causa, demonstrando, assim, uma cultura de verniz que não passa da primeira página de pesquisa no Google.

Na esteira desse livro, vieram outros, todos elucidativos sobre o tema: “Por que as pessoas de negócios falam como idiotas: um guia à embromação”, de Brian Fugere, Chelsea Hardaway e Jon Warshawsky; “Ciência picareta”, de Ben Goldacre; “Pura picaretagem: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a ciência para te enganar”, de Daniel Bezerra e Carlos Orsi (brasileiros); “Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos”, de Jean Bricmont e Alan Sokal; “O culto do amador: como blogs, MySpace, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores”, de Andrew Keen; e o que mais gosto, “Think: por que não tomar decisões num piscar de olhos”, de Michael Legault.

Mas essa realidade, aos poucos, está mudando, como afirma Michiko Kakutani em “A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump”: sem a verdade, não seremos prósperos nem virtuosos, muito menos livres. Numa época de proliferação de fake news e fatos alternativos, está ocorrendo um renascimento da preocupação pública com a verdade, e uma pressão generalizada para que políticos, líderes empresariais, médicos, consultores, professores e ativistas políticos sejam responsabilizados pela veracidade de suas palavras.

Tenho a convicção de que valorizamos a verdade o suficiente para lutarmos por ela. O mercado editorial está agora repleto de livros sobre os temas da verdade e mentira, alertando para esse novo e sério problema.

Ralph Keyes, em “A era da pós-verdade: desonestidade e enganação na vida contemporânea”, alerta que, embora sempre tenha havido mentirosos, as mentiras geralmente têm sido contadas com hesitação, uma pitada de ansiedade, um bocado de culpa, um pouco de vergonha, e, pelo menos, alguma timidez. Agora, pessoas inteligentes apresentam razões para manipular a verdade, de modo que possamos dissimular sem culpa. O autor chama isso de pós-verdade. Nós levamos a sociedade pela qual pagamos. Nesse caso, isso significa uma sociedade pós-verdadeira. Mesmo que mais mentiras estejam sendo ditas do que nunca, para o autor não há maior propensão humana a contar mentiras. O que ele acredita é que uma disposição antiga para enganar os outros está sendo facilitada de novas maneiras.

A série da Fox “Lie to me”, baseada no livro “Verdade ou mentira?: como saber o que os outros pensam mas não dizem”, de Joe Navarro, procura ensinar como saber o que as pessoas pensam mas não dizem. Como a comunicação interpessoal é feita essencialmente por meio do corpo mais do que pelas palavras e as expressões faciais, gestos, postura, tom de voz e forma de vestir são indicadores fundamentais para descobrir as verdadeiras intenções dos nossos interlocutores. Quer estejamos negociando num ambiente de trabalho ou conversando com amigos e familiares, nossa capacidade de perceber a verdade na linguagem corporal pode fazer toda a diferença. Não só nos permite detectar os pensamentos disfarçados, mas também transmitir aos outros a imagem que desejamos. O livro é resultado de anos de experiência de um antigo agente do FBI especializado em linguagem corporal. A série traz as investigações de uma equipe formada por especialistas em detectar mentiras. As mínimas expressões e gestos são interpretados por esses cientistas do comportamento, que prestam seus serviços para diversas entidades dispostas a descobrir a verdade que alguém pode estar escondendo. O grupo é liderado pelo Dr. Carl Lightman, um cientista que dedicou toda sua vida ao estudo do comportamento humano. Lightman ainda conta com a ajuda da sua parceira e psicóloga Dra. Gillian Foster, além dos pesquisadores Eli Locker e Ria Torres, uma mulher com o talento natural de interpretar as expressões humanas. Juntos eles formam uma equipe de verdadeiros polígrafos humanos.

Em “Sobre a verdade”, Harry G. Frankfurt aborda a seguinte questão: por que a indiferença à verdade é tão ruim? Da mesma forma que a verdade factual é necessária para construir uma ponte ou receitar um remédio, por exemplo, os indivíduos só são capazes de estabelecer objetivos e metas para suas vidas porque baseiam suas escolhas em crenças racionais, ou seja, em razão daquilo que foram levados a acreditar ser a verdade. Por esse motivo, insurge-se contra a pretensão, nas palavras dele mesquinha e narcisista, de que ser verdadeiro com os fatos não é tão importante quanto ser 'verdadeiro consigo mesmo. Essa atitude, sustenta ele, é intrinsecamente contrária à vida em sociedade.

Simon Blackburn oferece uma viagem exploratória naquele que considera “o problema mais instigante e atraente de toda a filosofia”: as guerras em busca da verdade, em seu livro “Verdade: um guia para os perplexos”. "Não consigo viver com mentiras"! Quantas vezes não ouvimos essa frase dita de modo definitivo? Mas quando olhamos à nossa volta percebemos que é quase impossível excluir a mentira da nossa vida. Todos os dias dizemos "pequenas" mentiras, que utilizamos de forma quase inconsciente, mas que afetam a nossa vida e a dos outros. "Estamos quase chegando" - e sabemos que ainda demoraremos mais de 30 minutos. "Esqueci de comprar bolachas" - e até compramos, mas é o que dizemos ao nosso filho quando ele nos pede bolachas mesmo antes do jantar. "Não recebi esse e-mail" - e, na verdade, recebemos, mas é o que respondemos quando nos perguntam se uma tarefa já está feita. Mentimos por hábito ou para nos protegermos? Para ficarmos bem vistos e impressionarmos os que nos rodeiam? Ou para obter uma vantagem adicional? Mentimos por nos sentirmos inseguros, porque temos uma autoestima baixa, por humanidade? Ou mentimos para esconder algo que fizemos de errado? Para manipular os outros?

A psicóloga María Jesús Álava Reyes, em “A verdade sobre a mentira”, ensina-nos a detectar as nossas próprias mentiras e as dos outros, a perceber se existe uma relação direta entre mentira e personalidade que leve determinadas pessoas a mentir mais do que outras, quais os erros a evitar para não cairmos nas mentiras alheias ou se temos consciência das nossas próprias mentiras. Mas tão importante como saber por que mentimos será perceber como podemos descobrir quem são os mentirosos à nossa volta e porque frequentemente nos deixamos enganar.

No entanto, a verdade não é tão simples quanto parece. Existem maneiras diferentes de falar a verdade, nem todas honestas. Na maioria dos temas, podemos escolher verdades distintas para nos comunicar. É uma escolha que influenciará como aqueles ao nosso redor aprendem um assunto e a ele reagem. Podemos selecionar verdades que envolvam pessoas e aspirem ações, ou podemos empregar outras que induzam a erro deliberadamente. A verdade aparece em muitas formas e comunicadores experientes podem explorar essa flexibilidade para moldar nossa impressão da realidade.

Diferentes formas de verdade podem ser usadas de modo mais construtivo para unir, inspirar e transformar. A escolha correta pode unificar uma empresa, encher de coragem um exército, acelerar o desenvolvimento de uma nova tecnologia, inflamar os apoiadores de uma causa política e estimular a reconhecer a energia, a criatividade e o entusiasmo de organizações inteiras. Líderes precisam reconhecer suas opções de comunicação, além de saber escolher e apresentar as verdades mais envolventes.

Vale a pena ler também “O guia conta mentiras: como pensar criticamente na era da pós-verdade”, de Daniel J. Levitin, que afirma que fatos e números sobre absolutamente tudo estão ao nosso alcance, mas são muitas vezes tendenciosos, distorcidos ou mentirosos. Dos números do desemprego às urnas de votação, dos testes de QI às taxas de divórcio, somos bombardeados por estatísticas aparentemente plausíveis sobre como as pessoas vivem e o que pensam. O autor nos mostra que compreender as estatísticas nos permitirá julgar de forma mais inteligente o mundo ao nosso redor.

Na sua palestra no TED 2009, depois registrada no livro “Comece pelo porquê: como grandes líderes inspiram pessoas e equipes a agir”, Simon Sinek destaca a relevância do tema para conseguirmos o engajamento daqueles que estão cansados de ser ludibriados por construções tecnicamente verdadeiras. Qual verdade será mais eficaz para promover seu argumento? Qual verdade trará inspiração para sua empresa? Qual verdade é a mais ética? Quais verdades podem ser utilizadas por outros com intuito de nos persuadir a agir contra nossos próprios interesses? Como podemos contestar verdades enganosas?

Há uma expressão corrente na mídia atual: “quando as verdades colidem”, o equivalente à frase de William James em “As variedades da experiência religiosa”, quando disse que “não há mentira pior do que uma verdade mal-entendida por aqueles que a executam”.

Compare as seguintes afirmações:
 
  1. A internet torna o conhecimento do mundo amplamente disponível;
  2. A internet acelera a disseminação da desinformação e do ódio.
Ambas as afirmações são verdadeiras. No entanto, a primeira dá uma impressão completamente diferente da segunda. Toda história tem vários lados. Modificando ainda mais o velho ditado, podemos dizer que todo conjunto de fatos permite deduzir mais de uma verdade. Aprendemos isso desde bem cedo: os alunos indisciplinados sempre sabem como selecionar as verdades que melhor sustentem seu caso. Mas podemos não apreciar a flexibilidade que essas diferentes verdades oferecem. Em muitos casos, há uma variedade de maneiras genuinamente legítimas de descrever uma pessoa, um evento, um objeto ou um princípio.

Segundo Carol Dweck, em “Mindset: a nova psicologia do sucesso”, mindset é um conjunto de crenças, ideias e opiniões que criamos e montamos a respeito de nós mesmos e do mundo ao nosso redor. Nossas posturas mentais determinam nossos pensamentos sobre as coisas, bem como nossas escolhas de ações.
Mindsets são flexíveis em alguns aspectos. Somos fortemente influenciados quando não temos nenhum conhecimento sobre algum assunto. Porém, uma vez que estabelecemos em uma percepção sobre um assunto, isso é, que nosso mindset se define, é surpreendentemente modifica-lo. É uma forma de viés de confirmação: tendemos a ser mais receptivos a novas verdades que se encaixem em nosso mindset preexistente e resistentes àquelas que desafiam nossas visões consolidadas.
Todos nós vemos o mundo pelas lentes de nossos pontos de vista diferentes, formados em grande parte pelas múltiplas verdades que ouvimos e lemos. Ao mesmo tempo, outras pessoas estão sendo nos conduzindo a determinadas facetas e interpretações da verdade, intencionalmente ou não. De acordo com Walter Lippmann, em “Opinião pública”, “precisamos, portanto, costurá-las com elementos de relatos de outras pessoas e de nossa própria imaginação”. O que os outros relatam contribui para nossa percepção da realidade, mas como agimos baseados em nossas percepções, o que os outros relatam também afeta a realidade objetiva.

As verdades recorrentes moldam a realidade. As verdades recorrentes informam nosso mindset, que, por sua vez, determina nossas escolhas e ações. Votamos, compramos, ministramos aula, fazemos consultoria, cooperamos e lutamos de acordo com o que acreditamos ser verdade. Algumas verdades nos acompanham por toda a vida, determinando as escolhas mais importantes que fazemos e definindo a própria natureza do nosso caráter. Desse modo, não é exagero afirmar que muito do que pensamos e fazemos é determinado pelas verdades concorrentes que ouvimos e lemos. Se quisermos compreender como somos influenciados a comprar um produto, apoiar uma ideologia, condenar uma figura pública ou fazer trabalho voluntário por uma causa, precisamos entender como as verdades concorrentes funcionam e o que podemos fazer a respeito.

Vemos que verdades concorrentes podem ser usadas construtivamente. Profissionais de marketing adotam diferentes mensagens para diferentes segmentos de consumidores, concentrando-se nos benefícios mais relevantes do produto para cada grupo. Médicos informam aos pacientes apenas os fatos clínicos necessários para controlarem sua condição, evitando sobrecarregá-los com detalhes complexos da biologia celular ou farmacologia. Defensores públicos, ativistas ambientais, clérigos, autoridades de saúde pública, consultores e líderes de todas as esferas precisam optar pela mais apropriada das verdades concorrentes para conquistar corações e mentes, e assim alcançar seus importantes objetivos.

Paradoxalmente, Sam Gosling, no seu livro extraordinário “Psiu, dê uma espiadinha: o que suas coisas revelam sobre você” assinala como distinguir a boa impressão da impressão real, anotando que a maioria das pessoas prefere ser vista como realmente é, até com defeitos, e não gostaria de ser. Em especial recomenda que, se você quer mesmo conhecer uma pessoa, tente conversar com ela sobre suas músicas favoritas. Engenhosos estudos relatados em “Sua playlist pode mudar sua vida: como sua música favorita pode melhorar a saúde, a memória, a atenção e muito mais”, de Galina Mindlin, Don DuRousseau e Joseph Cardillo, mostram que a música supera todos os outros assuntos quando a questão é conhecer as pessoas e passar de estranhos a amigos (ou não).

Todo mundo tem seus interesses, e nada mais natural que comunicadores selecionem as verdades que os favorecem. Porém, isso pode ser feito de maneira ética ou enganosa: existe a opção de transmitir uma impressão de realidade que esteja alinhada à realidade objetiva ou uma parte que a distorça deliberadamente. Além disso, seus interesses podem estar alinhados ou não aos do público, isso é, podem ser benignos ou maléficos. Verdades concorrentes são moralmente neutras: assim como uma arma de fogo ou uma caixa de fósforos, o que determina seu impacto é como são utilizadas. Encontraremos verdades concorrentes formadoras de uma impressão satisfatoriamente empregadas de todas as maneiras, para bons e maus propósitos.

Para simplificar essa ideia, Hector Macdonald, em “Verdade: 13 motivos para duvidar de tudo que te dizem”, concebe três tipos de comunicadores: defensores, aqueles que selecionam verdades concorrentes formadoras de uma impressão satisfatoriamente precisa da realidade, com o intuito de alcançar um objetivo construtivo; desinformantes, aqueles que propagam verdades concorrentes que distorcem a realidade inadvertidamente; e enganadores, aqueles que deliberadamente empregam verdades concorrentes de modo a criar uma impressão da realidade que sabem de antemão não ser verdadeira.

Verdade é um tema muito debatido entre filósofos. Eles discutem sobre a relação entre verdade e conhecimento, sobre a objetividade e o universalismo da verdade, sobre o lugar da verdade na religião e na ciência, e muito mais.

Existem verdades baseadas em fatos, estas são razoavelmente incontroversas. A data do descobrimento do Brasil ou a fórmula da molécula da água são exemplos de verdades factuais que podem ser averiguadas por pesquisa ou medição científica. No entanto, estamos sempre fazendo declarações que, mesmo não sendo baseadas em fatos, não são falsidades nem mentiras. Falamos se algo é bom ou desejável, ou determinamos seu valor. Esses costumam ser juízos subjetivos, porém os tratamos como verdades, e discutiremos com qualquer um que nos dizer que não são verdadeiros – ao menos para nós. O mesmo pode ser dito sobre algumas de nossas previsões a respeito do futuro e sobre nossas crenças ideológicas ou religiosas.

Uma definição de verdade que incorpore julgamentos subjetivos, precisões e crenças pode ser ampla demais para alguns gostos, mas um livro limitado a verdades factuais não nos propiciaria uma compreensão completa de como os comunicadores moldam a realidade usando afirmações verdadeiras (ou pelo menos não falsas) para persuadir pessoas a pensarem e agirem de maneiras específicas. Se um chef de cozinha renomado me disser que determinado prato é delicioso, eu prontamente aceitarei seu julgamento coo uma afirmação verdadeira e irei experimentá-lo quando for ao restaurante. Se um engenheiro experiente gritar “esse prédio vai cair”, vou considerar verdadeira sua previsão e sair correndo para me salvar.

Para Hector Macdonald, existem quatro categorias de verdades concorrentes.

Verdades parciais são aquelas derivadas da complexidade intrínseca aos assuntos mais banais e são um traço inevitável da nossa maneira de nos comunicar. Nossa compreensão da história é moldada por verdades parciais, e essa compreensão nos molda como pessoas. O contexto é crucial para a compreensão adequada de coisas e acontecimentos, mas pode ser expresso de maneiras marcadamente diferentes. Estatísticas são uma fonte rica de verdades concorrentes já que seu significado não é claro para muitos de nós. Nós evoluímos para uma comunicação em forma de narrativas, mas nossas narrativas necessariamente deixam de fora muitos detalhes relevantes.

Verdades corretas são as que nascem quando lutamos pelo que julgamos correto. Andamos sobre brasas e cacos de vidro para obter o que desejamos, fazemos filas que dobram o quarteirão para aproveitar uma boa oferta. Apontar algo como bom, desejável ou valioso financeiramente é expressar uma verdade subjetiva. E porque é subjetiva, pode ser mudada. Como somos, em geral, motivados pela moralidade, pela conveniência e pelo valor financeiro percebidos, entender como alterar as verdades subjetivas das pessoas pode ser a chave para descobrir como persuadi-las a mudar seu modo de agir.

Verdades artificiais derivam da linguagem notoriamente flexível, que estabelece significados conforme as definições aplicadas às palavras que usamos. Da mesma forma, os nomes que damos aos produtos, eventos e procedimentos podem determinar seu sucesso ou fracasso. Tanto nomes como definições são criados pelo homem – são verdades artificiais. Comunicadores que estabelecem novos nomes ou definições para atender a seus propósitos estão, em essência, forjando novas verdades. Os seres humanos são bons em elaborar coisas abstratas, sejam elas moedas, empresas, entidades políticas ou marcas comerciais. E, visto que são invenções humanas, essas construções sociais são verdades que podem ser facilmente modificadas.

Finalmente, verdades desconhecidas são resultantes de decisões sobre investimentos, casamento, estudos e vários outros âmbitos pessoais, pois agimos de acordo com as previsões que achamos mais convincentes. Essas previsões podem variar imensamente, e cada um de nós adota ideias distintas sobre o futuro. Até o tempo passar e descobrirmos qual das previsões estava correta, elas permanecem como verdades concorrentes. Talvez nunca iremos descobrir a real verdade sobre crenças religiosas e ideológicas, mas isso não as torna menos poderosas com o ímpeto motivador para milhões de pessoas. Enquanto não pudermos prova-las falsas, crenas são uma forma de verdade para muitos.

Em seu romance distópico “1984”, George Orwell imagina uma sociedade angustiante em que burocratas do Ministério da Verdade distorcem a realidade disseminado mentiras e criando relatos fictícios do passado. Uma nova linguagem, de caráter restritivo, e a Polícia das Ideias impedem que os cidadãos reflitam criticamente sobre a propaganda governamental. O protagonista, Winston Smith, tenta desesperadamente resistir às mentiras do governo dizendo a si mesmo: “havia verdade e havia não verdade, e se você se agarrasse à verdade, mesmo que o mundo inteiro o contradissesse, não estaria louco”.

Do mesmo modo que a vigilância onipresente parece estar se tornando realidade de uma maneira bem diferente daquela imaginada por Orwell em sua distopia, graças à mídia social e à chamada tecnologia móvel, seus receios quanto à integridade da verdade estão se mostrando bem fundamentados, porém mal direcionados. Não estamos simplesmente sendo enganados: o pior é que estamos sendo rotineiramente enganados pela verdade.

A vida parece mais simples quando, como Winston Smith, dizemos a nós mesmos que existe uma única verdade e que tudo o mais é um desvio dessa verdade – um erro, uma mentira, uma “não verdade”. É perturbador imaginar que podemos moldar a realidade simplesmente escolhendo uma verdade diferente, como num reality show de Black Mirror. A própria ideia de verdades concorrentes parece evasiva, maliciosa, conivente. Mas seu impacto pode ser intenso.

Verdades concorrentes são encontras em todas as áreas de atuação humana. Moldar a realidade por meio delas pode ser desnorteante, especialmente quando colocamos em dúvida a validade de coisas que há muito aceitamos como legítimas. Pode ser também exasperante, como acontece quando estatísticas e definições são usadas de maneira astuta, porém traiçoeira. Pode ser, por outro lado, estimulante e esclarecedor quando nossa compreensão do mundo muda repentinamente e novas possibilidades se abrem. Acima de tudo, verdades concorrentes são significativas e relevantes para todos e, gostemos ou não, afetam nossa vida diariamente. É um dever para nós mesmos e para a sociedade que aprendamos a reconhecê-las melhor, a usá-las de forma responsável e, se necessário, a elas resistir.
   
 

JERÔNIMO LIMA
Consultor da Mettodo. Vice-Presidente da ABCO.