Eu não sei x Ultracrepidantismo

 
Há muito se fala que as três palavras mais difíceis de serem ditas são “eu não sei”. É de se lamentar porque enquanto não se admite aquilo que ainda não se sabe, é praticamente impossível aprender o que se precisa aprender.
 
Antes de entrar nos motivos de todo esse fingimento, e também nos custos e nas soluções, quero esclarecer o que quero dizer quando me refiro ao que “sabemos”.
Claro que existem diferentes níveis e categorias de conhecimento. No alto dessa hierarquia estão os chamados “fatos”, aquilo que pode ser cientificamente comprovado. Todo mundo tem direito às suas próprias opiniões, mas não a seus próprios fatos. Se alguém insistir em dizer que a composição da água é HO2 e não H2O, estará sujeito a ser desmentido a qualquer momento.
 
E existem também as crenças, que consideramos verdadeiras, mas que não podem ser facilmente comprovadas. Nessas questões é maior a margem de discordância. Por exemplo: o diabo realmente existe? Essa simples pergunta geraria uma disparidade de respostas, pois, talvez, a existência do diabo seja uma questão sobrenatural demais para ser considerada factual.
 
Aquilo que sabemos pode ser modelado por pontos de vista políticos ou religiosos. O mundo também está cheio de “empreendedores do erro”, líderes políticos, religiosos e empresariais que fornecem crenças capazes de aumentar seus lucros financeiros ou políticos. Por si só isso já é um problema, mas que se agrava quando rotineiramente fingimos saber mais do que sabemos. No entanto, quantas vezes ouvimos especialistas, políticos e empresários, comentaristas esportivos, gurus do mercado de ações e meteorologistas dizendo que têm uma ideia bem clara de como haverá de se desdobrar o futuro? Será que, de fato, sabem do que estão falando ou simplesmente blefam?
 
Inúmeros testes mostram que a elite que tem pós-graduação (nunca fui testado, mas me incluo aqui) acredita que sabe mais do que sabe, mas o grau de suas previsões não é melhor do que o famoso caso do “macaco atirador de dardos”. Essa certeza, ou dogmatismo, uma crença inabalável de saber que algo é verdadeiro quando na verdade não se sabe se é, mostra excessiva confiança, mesmo quando suas previsões se mostram redondamente erradas. Trata-se de uma combinação letal de vaidade e erro, especialmente quando existe uma alternativa mais prudente: simplesmente reconhecer que o futuro é muito menos passível de ser conhecido do que imaginamos.
 
Mas isso, infelizmente, raras vezes acontece, pois pessoas inteligentes gostam de fazer previsões que soem inteligentes, mesmo que possam estar erradas. Em 2005 assisti a uma palestra do economista americano Paul Krugman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2008. Nessa palestra, visivelmente entediado e cansado, segurando a cabeça em frente ao púlpito do evento, ele deu um show de ignorância sobre o Brasil. Mas, o pior, observou que muitos economistas fazem previsões infundadas porque superestimam o impacto das tecnologias futuras, e então ele próprio previu que o crescimento da internet diminuiria drasticamente à medida que a falha da Lei de Metcalfe, segundo a qual o número de possíveis conexões em uma rede é proporcional ao quadrado do número de participantes ficasse evidente: a maioria das pessoas nada têm a dizer às outras, e que o impacto da internet na economia não seria maior que o da máquina de fax.
 
Bem, no início de 2019, apenas a capitalização da Google, Apple, Amazon, Microsoft e Tencent, as cinco mais valiosas empresas do mundo, era de mais de quase US$ 2 trilhões, valor superior ao PIB de quase todos os países do planeta (exceto 15). Isso mostra que não apenas sabemos menos do que afirmamos sobre o mundo exterior, como sequer nos conhecemos assim tão bem. A maioria das pessoas revela-se muito mal dotada na tarefa aparentemente simples de avaliar seus próprios talentos. Apesar de passarem mais tempo consigo mesmas que ninguém, as pessoas muitas vezes têm uma percepção surpreendentemente pobre de suas habilidades.
 
Mas digamos que você de fato seja excelente em algo, um autêntico mestre na sua área de atuação, um ninja. Isso significa que também tenha maior probabilidade de se destacar em outra atividade? É considerável o número de pesquisas que mostra que não. O ponto a ser lembrado aqui é simples, mas soa forte: não é porque você é muito bom em alguma coisa que será bom em tudo. Infelizmente, esse fato é ignorado o tempo todo por aqueles que cultivam o ultracrepidantismo, hábito de dar opiniões e conselhos em questões alheias ao seu conhecimento ou competência.
 
Em síntese, ter em elevada conta suas próprias capacidades e deixar de reconhecer o que você não sabe pode levar, como se poderia esperar, ao desastre. Quando estudantes blefam em suas respostas no ENEM não há maiores consequências (só para eles mesmos e, às vezes, para seus pais), pois sua relutância em admitir “não sei” (ou não estudei o suficiente) não gera qualquer custo para ninguém. Mas, no mundo real, os custos sociais do blefe podem ser enormes.
 
Ultracrepidanismo é o hábito de expressar opiniões ou dar conselhos em assuntos para além do conhecimento do próprio. É uma aglutinação das palavras ultra e crepidam, originalmente publicada em inglês num ensaio de William Hazlitt, com origem na expressão latina “Sutor, ne ultra crepidam” encontrada da obra de Plínio, o Velho, e que significa "Sapateiro, não vá para além da sandália". É usada para desencorajar um indivíduo de falar para além da sua área de conhecimento, a frase seria grosso modo equivalente à expressão portuguesa "Não fales mais do que sabes".
 
 
Jerônimo Lima
CEO da Mettodo - Reflexão estratégica
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