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O que a gestão pode aprender com a arte minimalista: Simplicidade versus complexidade no mundo dos negócios


 

No mundo corporativo, estamos vivendo uma vida de excessos. São políticas, procedimentos, rotinas, controles e sistemas que tiram a agilidade das pessoas e das empresas. Há, também, a autoimposição de um número pouco realista de metas ambiciosas demais para cumprir em prazos sabidamente inexequíveis. Tudo isso gera tensão desnecessária. Ainda tem gente que argumenta que isso trata de “estresse positivo”, mas, na minha visão, só deixa as pessoas à beira de um ataque de nervos.

Por esses motivos, há alguns anos, além de continuar a dedicar minha carreira de consultor a simplificar o entendimento dos conceitos de administração para ajudar as pessoas e empresas com as quais trabalho a alcançarem melhores resultados e a melhorar sua qualidade de vida, venho me empenhando em combater a complexidade organizacional pelo caminho da simplicidade. Assim, nas sessões de autógrafos de lançamento de meus livros, neste ano, fiz uma dedicatória bem minimalista, aproveitando o título do livro na folha de rosto para passar uma mensagem positiva para quem quis me prestigiar.

Engraçado que muitas pessoas me perguntaram por que eu estava escrevendo tão pouco! Bem, além de poupar o tempo daqueles que estavam na fila, usei essa estratégia para passar a mensagem da minha nova perspectiva de trabalho: a simplicidade baseada no minimalismo, como exemplarmente ensinado no livro “Essencialismo: a disciplinada busca por menos”, de Greg McKeown.

Originalmente, o termo minimalismo descreve um movimento artístico do século XX. Os artistas minimalistas utilizam e apreciam, em seus trabalhos, uma quantidade reduzida de processos, materiais e temáticas, simplificando a obra e, às vezes, tornando-a até repetitiva. As cores e formas, nas obras minimalistas, são bastante limitadas e apresentadas com simetria. Além das artes plásticas, o minimalismo exerce grande influência na arquitetura, design e desenho industrial.

Modernamente, o minimalismo representa o conceito usado pela sociedade para colocar um pouco de ordem no caos que as pessoas tendem a deixar à sua volta. Cansadas do burburinho do dia a dia, as pessoas fazem de tudo para viver, ainda que por breves momentos, a sensação reconfortante de ter sua vida pessoal e profissional arrumadas. A meditação tem se destacado como uma das formas mais recorrentes para realizar essa arrumação nos pensamentos. Foi assim que surgiu o app Headspace, que propõe uma série de exercícios de meditação focados em três áreas: performance, saúde e relacionamentos. Isso aponta para uma triste conclusão: a complexidade da vida moderna, o excesso de informação, o barulho e o caos presentes no cotidiano provocam problemas graves que vão além do simples cansaço mental e podem abrir caminho para doenças causadas pelo estresse, afetando negativamente, inclusive, os relacionamentos.

Paradoxalmente, ficar sozinho por algum tempo é a melhor forma de se manter conectado de forma positiva com as pessoas. Mas escapar da convivência compulsória exige decisão e dedicação. Para isso, a designer inglesa Freyja Sewell criou um móvel que parece uma espécie de casulo batizado de Sensory Concentration Space, que permite à pessoa escolher a cor das luzes ou a sequência em que elas aparecem, o som e até o aroma desse espaço íntimo, uma espécie de útero materno high-tech, guardando uma enorme semelhança com as cabanas que as crianças montam em seus quartos e onde se refugiam para viver fantasias e aventuras, totalmente descompromissadas das demandas externas. Para quem vive na sociedade hiperconectada, silenciar a mente é algo cada vez mais difícil. Talvez seja por isso que algum tempo em silêncio tenha se tornado raro, e providências para fazer essa pausa acontecer passaram a fazer parte das preocupações de quem precisa desenvolver algo criativo, como estou tentando fazer agora, neste sábado à noite, sozinho em casa, ouvindo músicas românticas na voz maviosa de Shawn Colvin, tomando chá de pêssego e cassis na minha caneca “Nerd loves penguins”. É um luxo que poucos conseguem ter!

Nesse sentido, uma das transformações comportamentais mais significativas dos últimos tempos tem sido a migração das pessoas do estilo de vida Fomo para o Jomo. Fomo se refere à expressão fear of missing out, que corresponde à necessidade de estar sempre conectado e atualizado e de sempre saber tudo o que todo mundo está postando nas redes sociais. Esse medo de ficar ‘por fora’ começou a criar uma sensação de impotência muito natural, afinal, sempre se perde alguma coisa. Aí surgiu o movimento oposto, o Jomo, ou joy of missing out, em que a graça está em não estar por dentro de tudo, na alegria de estar simplesmente desconectado e curtindo o que se está fazendo sem sofrer por não estar fazendo outra coisa. É simplesmente gostar do vazio e estar no presente. É como apreciar um ‘quadro em branco’. Aliás, de tão raro na nossa sociedade, o quadro em branco se tornou uma forma de arte, cujo exemplo maior está no talento do artista escocês David Batchelor, que fez uma série de fotos em que mostra o quanto placas e painéis em branco colocados em muros e cercas chamam a atenção das pessoas nas grandes cidades, justamente por estarem vazios, limpos, sem nada escrito, desenhado ou rabiscado. Essa experiência artística mostra o quanto as pessoas notam e apreciam um respeito no visual superestimulante.

Por sua natureza sensorial, o mundo das artes, sempre na vanguarda, tende a funcionar como uma antena que sintoniza os sentimentos da sociedade antes mesmo que eles criem substância. Por isso, a História da Arte se constrói entre ações e reações. Os impressionistas, por exemplo, buscaram retratar as suas impressões da realidade de forma pessoal e subjetiva, e desprezavam a precisão da pintura figurativa que tentava reproduzir o mundo de forma literal, documental. Monet, Manet, Degas e Renoir mostravam, em pinceladas ora furiosas ora delicadas, a vida e as cenas que vivenciavam, conforme travavam contato com ela. As sutilezas cromáticas de Monet ou a percepção dos sentimentos humanos revelados nas cenas de Renoir acabaram sendo a inspiração para outras formas de se posicionar, não apenas artisticamente, mas de modo geral perante o mundo.

Como reação a essa visão poética, os expressionistas acrescentaram o drama humano à estética de pinceladas livres. Basta ver o quadro “O Grito”, do pintor norueguês Edvard Munch, pintado na década de 1890 e exposto na Galeria Nacional de Oslo, para notar que ali existe algo profundo, uma angústia indisfarçada, um sofrimento explícito que é mais do que a sua impressão da realidade – é a expressão de seus sentimentos. A cena artística foi ficando cada vez mais pessoal até que, no período entre as grandes guerras mundiais, a busca da simplicidade voltou a interessar os artistas.

Em 1919, fundada pelo arquiteto Walter Gropius, foi criada, na Alemanha, a Bauhaus, uma escola de artes aplicadas que procurava a eficiência nas formas puras. No pós-guerra, o expressionismo abstrato do pintor americano Paul Jackson Pollock, hermético e paranoico, ganhou espaço até que, nos anos 1960, a reação aos excessos virou movimento: o Minimalismo, um estilo de fazer arte que busca a atemporalidade por meio da economia de elementos, usando o mínimo necessário para comunicar, como no conceito de simplicidade voluntária se usa o mínimo necessário para viver. O lema dos minimalistas é “menos é mais”, porque com menos coisas atrapalhando, dá para fazer mais, ter mais tempo, criar mais. Nessa óptica, ser elegante é encantar na medida certa, arrebatar pela graça e inteligência, jamais pecar pelo excesso. Em outras palavras, a riqueza virou sinônimo de necessidades satisfeitas, tanto as básicas quanto as sofisticadas, de forma eficiente, ou seja, obtendo a melhor resposta dos recursos empregados para atingir um objetivo e não simplesmente acumulando inutilidades. Isso inclui ser parcimonioso no uso dos recursos e dizer pouco para ser ouvido. Olhando por esse prisma, percebe-se que a própria natureza é minimalista e os elementos do minimalismo são fundamentais para a existência sustentável e, consequentemente, para a preservação das espécies e das empresas.

Alcançar êxito por meio da elegância, eficiência, eloquência é um desdobramento tão direto quanto verificar que o excesso desequilibra, atrapalha, confunde e, geralmente, leva à derrota. Executivos querem se mostrar inovadores, mesmo sabendo que aquela inovação é vazia. Ao mesmo tempo, há a pressão de copiar o concorrente para competir no mesmo nicho de mercado, não deixar espaços vagos, tentar aproveitar todas as oportunidades, em uma ansiedade de realizar, que beira a paranoia. Isso é uma distorção perversa do princípio empreendedor da economia de mercado, que ganhou escala com a Revolução Industrial e prega a intenção constante de otimizar as oportunidades. Só que, para investir em um mercado, é preciso ter critérios claros para que as decisões não se voltem contra o gestor no futuro. Hoje a pressão por resultados em curto prazo é cada vez maior, o que se traduz para os líderes em pressa para colocar no mercado produtos e serviços mal planejados. O olhar está voltado para a concorrência, para os indicadores de desempenho e até para os efeitos que determinadas atitudes podem ter na evolução de suas carreiras. O interesse do consumidor, que deveria ser o foco principal, acaba sendo ultrapassado por tudo isso.

Nesse processo, é preciso perceber as lições que a arte minimalista ensina ao mundo dos negócios: a elegância da empresa ao tentar descobrir o que os stakeholders desejam, sua eficiência em realizar esse desejo, a eloquência da solução que motivou as estratégias e o êxito que vai além delas e deve se transformar em satisfação na utilização do produto ou serviço. Infelizmente, o que tem ocorrido é justamente a vaidade profissional como motor para a definição de estratégias, numa dinâmica corporativa que privilegia o excesso.

E, assim, temos o paralelo para o Expressionismo, movimento que está ligado à distorção da realidade provocada pelo ego, que determina que as prioridades e sentimentos do indivíduo se sobreponham à realidade e à razão. Esse tipo de volúpia pela acumulação está ligado à vaidade humana. Já o Minimalismo está associado à razão. O elo perdido entre a sustentabilidade natural e o excesso devastador é a gestão humana, é a habilidade de manejar os recursos para que eles sejam suficientes para todos.

O Minimalismo é a ferramenta certa para guiar essa gestão de recursos, porque ele não só ajuda a equilibrar o dispêndio desnecessário, como sempre vai colocar o cliente no centro das decisões. Afinal, ser minimalista implica ser reconhecido pela qualidade. Vale a pena lembrar que o Minimalismo, também chamado de Essencialismo, relaciona-se com a essência, com a pureza, com a racionalidade. Nada tem a ver com escassez, baseia-se em elegância, eficiência, eloquência, qualidades que, juntas, levam ao êxito na esfera pessoal e profissional.

Elegância, harmonia ou leveza é um charme difícil de definir em palavras, mas muito fácil de reconhecer, até fisicamente, por meio dos cinco sentidos. Compõem a percepção que as pessoas têm do termo simplicidade, um conceito que carrega em si a conotação de eficácia e aponta para resultados harmônicos dotados de fluidez e identidade. Para aprender mais sobre isso, recomendo a leitura do livro “Abundância: o futuro é melhor do que você imagina”, de Steven Kotler e Peter Diamandis.

Além disso, a palavra passou a ser adotada como sinônimo de bom gosto: as coisas simples exigem graça, propriedade e dignidade. Por tudo isso, “simples” ou “elegante” se tornou o adjetivo mais desejado para descrever fórmulas matemáticas e conceitos científicos, além de ser altamente valorizado nas artes. Na verdade, a busca pela combinação de simplicidade, harmonia e alta eficiência é onipresente em vários campos do conhecimento humano. Por exemplo, teoremas matemáticos e programas de computador conquistam esse adjetivo quando se mostram ao mesmo tempo fáceis de serem entendidos e usados e amplamente efetivos. Para ser considerado elegante, um algoritmo deve ter uma quantidade pequena de código e gerar efeitos grandiosos. Para ser reconhecida como elegante, uma solução de engenharia é aquela que vai além do óbvio, e muitas vezes é capaz de resolver mais de um desafio ao mesmo tempo.

Mas pouco se fala em simplicidade em gestão de empresas, que se traduz em harmonia e prosperidade, pois quando um gestor estabelece metas e processos simples ele está também aumentando o estímulo de seus colaboradores e parceiros para atingir essas metas, porque transmite clareza em seus propósitos. Esse é um motor importante da produtividade.

A palavra “simples” vem do latim e é composta por dois radicais: sim, que significa único, e plex, que significa dobra. Portanto, é algo com apenas uma dobra; já o “complexo” é o que tem muitas dobras. Vale notar que simples não tem nada a ver com simplório, que é aquele que se contenta com o trivial, não tem grandes ambições e acaba sendo vítima da complexidade, eliminando as dificuldades para chegar a um resultado. O simplório chega a um ambiente todo bagunçado, senta num canto e fica lá parado, acuado, sem se mexer. Já, o simples, é aquele que enfrenta a bagunça e começa a limpar e arrumar o lugar, até se sentir confortável e dono daquele espaço.

Nada é mais importante na gestão de uma empresa do que criar espaço para que os colaboradores possam se expandir criativamente. O gene da simplicidade tem papel fundamental na longevidade empresarial, e a essência da simplicidade, em termos corporativos, significa colocar os stakeholders em primeiro lugar.

Jerônimo Lima é diretor de Desenvolvimento Profissional da ABCO e CEO da Mettodo.

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