ABCO - Associação Brasileira de Consultores

O declínio da educação corporativa como ela é e o fim dos congressos de gestão


Nesta semana participei de mais um congresso de gestão e, como eu previa, foi outra grande frustração, principalmente em termos de aprendizado. Essa é uma decepção recorrente com esse tipo de capacitação executiva desde meados da década de 2000, mas os congressos de gestão conseguiram piorar em vários aspectos.

No final da tarde choveu em Porto Alegre, foi difícil até conseguir um Uber para voltar para casa. Cansado, entediado, molhado, mal humorado, pensando nas muitas coisas boas que podia ter feito em vez de ter participado daquele encontro que representou um dia praticamente perdido na minha vida, resolvi que, com raras exceções, não participarei mais desse tipo de evento. Mas quero fazer uma última reflexão sobre por que eles não agregam mais valor e de que forma podemos continuar a aprender mesmo sem essa participação. Vou refletir sugerindo sites de congressos que aprecio e livros que recomendo, de modo a não ficar apenas no nível das críticas sem nenhuma contribuição para a melhoria ou a solução desse problema enfrentado por todos que trabalham com administração de empresas.

Eu já havia prometido a mim mesmo reservar meu tempo precioso e meu dinheiro escasso para priorizar minha participação, todo ano, no Fronteiras do Pensamento (www.fronteiras.com) e na Expo Management (www.hsm.com.br/events/hsm-expo-2017). O Fronteiras do Pensamento não é um congresso de gestão, é um evento cultural que propõe uma profunda análise da contemporaneidade e das perspectivas para o futuro. Comprometido com a liberdade de expressão, a diversidade de ideias e a educação de alta qualidade, promove conferências internacionais e desenvolve conteúdos múltiplos com pensadores, artistas, cientistas e líderes em seus campos de atuação. A Expo Management é um evento de educação corporativa para executivos que oferece trilhas de aprendizagem para aprimorar e atualizar conhecimentos em temas essenciais para a carreira executiva.

Voltando ao tema dos congressos de gestão, eu penso que as causas de eles estarem cada vez piores começa pela organização do evento e o descumprimento dos horários programados para início e término, que nunca são cumpridos. A abertura invariavelmente atrasa, às vezes até 45 minutos, porque políticos e celebridades não chegam no horário previsto para suas falas, o que cria um efeito cascata negativo até o término. Assim, lá pelo final da tarde, ou o público esvazia o auditório e desmotiva os palestrantes que ainda vão falar, ou os palestrantes são coagidos a reduzir o tempo de suas palestras, não conseguindo conduzir adequadamente o fio da meada de suas ideias, às vezes concebidas e desenvolvidas com muito esmero durante meses. Não sei o que é pior.

O tema do evento é quase sempre mal dividido em módulos ou subtemas que se sobrepõem em vez de se complementar, e o que se vê não é um mosaico de ideias enriquecedoras, mas uma colcha de retalhos desconexos que deixa os participantes confusos ao invés de mais abertos a novas soluções para seus problemas de negócios. Aliás, na área de gestão, é nítida a tentativa desses congressos em buscar soluções para problemas novos sem que os velhos sequer ainda tenham sido resolvidos. Uma boa leitura para resgatar os assuntos que fustigam a mente dos administradores está no livro “Derrubando mitos: como evitar os nove equívocos básicos do mundo dos negócios”, de Phil Rosenzweig.

No mês passado fiz um curso na FNQ – Fundação Nacional da Qualidade sobre o “novo” Modelo de Excelência da Gestão, o MEG 21, e fui (re)apresentado ao que havia aprendido em 1989, quando fiz curso com Deming, nos EUA, sobre os fundamentos da gestão das empresas. Enquanto os experts da gestão brasileira acham que agora descobriram o pulo do gato e estamos avançando, na verdade estamos mesmo 40 anos atrasados! Basta ler “A nova economia para a indústria, o governo e a educação”, de William Edwards Deming, publicado originalmente em 1994, que se percebe claramente isso. A FNQ agora misturou a teoria de Deming com Tangram (saiu do esoterismo e foi para o “lúdico”), PDCA e modelos de maturidade (o pessoal de Tecnologia da Informação utiliza avaliações de níveis de maturidade desde a década de 1980!) e acredita que agora sim vai dar certo! Mas então todos os esforços que as empresas fizeram desde 1991 com a (esotérica) “mandala da excelência” foram um fracasso que não querem reconhecer?! E onde está a coerência com o princípio “estabeleça constância de propósitos para a melhoria do produto e do serviço, objetivando tornar-se competitivo e manter-se em atividade, bem como criar empregos”, exatamente o primeiro da filosofia de Deming”?! O discurso é que houve “evolução e flexibilidade”. Sou capaz de apostar que no próximo ano vai sair o MEG 22, e estará tudo diferente, porque o modelo atual foi testado com as empresas cobaias deste ano, e os experts se darão conta que não era bem assim, e que o modelo “precisava ser melhorado”. Tenham dó!

Tudo isso me fez lembrar do livro mordaz imperdível “Por que as pessoas de negócios falam como idiotas: um guia de combate à embromação”, de Brian Fugere e Chelsea Hardaway. Nele, os autores afirmam que os negócios estão se afogando em conversa empolada; uma linguagem impertinente, exagerada e presunçosa invadiu e-mails, relatórios e reuniões. Os autores oferecem não apenas a chance de entender por que a habilidade da persuasão se tornou tão imprescindível no ambiente corporativo atual, mas uma real oportunidade de se tornar uma pessoa convincente, autêntica e original que todos desejarão escutar.

As feiras dos congressos de gestão, que antes eram focadas em produtos e serviços úteis da área de atuação dos congressistas, hoje vendem massagens nas costas, moletons, canecas e até relógios cuco, visivelmente enchendo espaços porque não são mais atrativas para as empresas do setor.

As pastas dos inscritos vêm abarrotadas de material comercial que noto que vai direto para o lixo na hora do primeiro coffee-break, sem conteúdo aproveitável a não ser o bloco e a caneta para as poucas anotações. Aliás, nem é preciso anotar mais nada: se você está assistindo uma palestra e gostou daquele slide específico, basta fotografar com o celular, mesmo de longe e que a foto saia meio torta, uma parte com foco e a outra desfocada: o app nerd YouCam Snap-Camera salva em arquivos de extensão tipo .jpg ou .pdf de forma muito nítida. É o fim das anotações!

O formato de dias intermináveis com palestras sucessivas (sejam conferências, painéis, talk shows) se esgotou, agravado pelo comportamento inconveniente de muitos palestrantes, que abordarei mais adiante. Tenho visto tentativas bem-sucedidas de mudar isso na Expo Management e nos congressos da ASTD – American Society for Training and Development (www.astd.org), com trilhas de aprendizagem, gameficação da aprendizagem, uso de realidade virtual, mais workshops e menos teoria. Uma ótima novidade são as chamadas antipalestras, em que o speaker monta toda ou parte de sua apresentação na hora, a partir de provocações e sugestões dos participantes inscritos, de modo wiki, o que pressupõe que o nível dos palestrantes é melhor. Essa iniciativa poderá ser vista de forma pioneira no Brasil no PiB Enfoque UniRitter (www.pibenfoque.com.br), evento no qual o participante, ao efetuar sua inscrição, escolhe um dos palestrantes para fazer questionamentos ou dar sugestões de abordagem, dentro do tema proposto para a palestra dele. Uma parte do tempo da apresentação de cada palestrante será destinada a abordar as provocações dos participantes.

Todos os aspectos negativos que mencionei levaram a um networking de baixo nível negocial nesses congressos, pelo menos na minha área de atuação, pois não são empresários nem executivos de alto escalão que participam deles. Lá encontro sempre as mesmas pessoas, analistas e gestores do médio escalão que estão num momento de vida profissional que não permite a eles tomar decisões nem mesmo influenciar a compra de consultoria ou treinamento. Assim, posso “fazer amigos e influenciar pessoas”, distribuir cartões de visita, tomar café e bater papo, mas não pense que participar desses eventos vai render contratos porque não vai, a despeito dos apelos comerciais dos buscadores de patrocínios. Aliás, basta dar uma olhada nos painéis atrás do palco principal e notar que os “patrocinadores” minguaram ou migraram para “apoiadores”, e não foi só pela crise econômica do país. Eles também percebem o que eu percebo em termos da eficácia desses congressos como estratégia de aprendizagem organizacional e oportunidades de negócios. Nem visitas de benchmarking se consegue mais marcar com os outros participantes porque eles não têm autonomia para isso nas empresas em que trabalham.

Por fim, em relação à organização dos eventos, quero destacar negativamente a mesmice dos temas, a exacerbação dos modismos e a subestimação do nível de informação da plateia. O pior desses casos é o excesso de contexto. Tenho visto isso sendo de modo bem conduzido nos congressos da WFS – World Future Society (www.wfs.org) e no Congregarh da ABRH-RS (www.abrhrs.com.br/congregarh/), nos quais apenas o primeiro palestrante aborda cenários e contexto e os demais são terminantemente proibidos pelos organizadores de fazerem isso (o que nem sempre é respeitado pelos palestrantes). Por que se não for assim, todos começam com o mesmo discurso “no mundo globalizado em que as coisas estão em constante mudança… blá-blá-blá, a evolução das tecnologias da máquina de escrever às redes sociais, mais blá-blá-blá”, e quando o palestrante realmente vai começar a tratar do assunto que prometeu, a moça da comissão organizadora levanta a placa para avisá-lo que faltam só 30 minutos para o fim da palestra! Ninguém aguenta mais isso! O mundo é conectado, todos sabem! Que só se tenha uma única palestra sobre cenários e tendências, no início do evento, e que os demais palestrantes vão direto ao ponto de suas falas, sobre os temas que se propuseram a apresentar! Aliás, sobre cenários, tendências e contexto, sugiro a leitura de “Inevitável: as 12 forças tecnológicas que mudarão nosso mundo”, de Kevin Kelly. E para separar esse joio todo do raro trigo que ainda se ouve em congressos de gestão, é vital ler “Maus conselhos, uma armadilha gerencial: como distinguir os conselhos eficazes daqueles que não têm valor”, de Chris Argyris.

Em relação aos palestrantes, quero destacar algumas falhas gritantes, mas vou abordá-las com sugestões de melhorias, uma vez que, como sou um deles, sinto-me à vontade para fazer isso.

Antes quero dizer que percebo claramente que, embora os organizadores muitas vezes se esforcem para orientar os palestrantes sobre a importância do uso de templates padronizados, a obrigatoriedade de conexão de suas falas com o tema do evento, e a não comercialização de serviços e produtos, muitos deles simplesmente ignoram as orientações recebidas. E é comum ver palestrantes fazendo propaganda acintosa, usando slides péssimos que não são didáticos, e falando do que eles bem entendem, sem que aja a mínima conexão do que havia sido combinado em relação à temática do evento. Isso é falta de ética profissional e total desrespeito com a organização do evento e a plateia. Eu recomendo que todos leiam atentamente “Ética pessoal para o mundo real: criando um código ético e pessoal para guiar suas decisões no trabalho e na vida”, de Ronald A. Howard e Clinton D. Korver.

Especialmente os palestrantes, é preciso que se inspirem nas melhores práticas do TED (www.ted.com) para aprender como preparar e ministrar ótimas palestras. “TED talks: o guia oficial para falar em público”, de Chris Anderson, mostra como fazer isso. Como já mencionei, um palestrante não deve falar do contexto, a menos que seja o de abertura. Contar sobre sua estratégia de pesquisa é fundamental, pois ninguém respeita um palestrante que fala para uma grande e culta plateia sem antes ter se preparado e pesquisado. Vejam o exemplo de Jim Collins, ele é tido com o sucessor de Peter Drucker. Seus livros sempre trazem um apêndice com sua estratégia de pesquisa, como em “Vencedoras por opção – incerteza, caos e acaso: por que algumas empresas prosperam apesar de tudo”. É imprescindível ao palestrante mostrar um slide, logo no início, com o roteiro da palestra, isso é, do desenvolvimento do seu raciocínio, e vá demarcando as etapas de sua apresentação, de modo que a plateia possa acompanhar seu raciocínio do início ao fim. É preciso dar exemplos práticos do que está conceituando, uma vez que o público não é acadêmico, é empresarial, precisa de conceitos, mas prefere ver isso em cases. Todos devem cumprir rigorosamente o tempo estabelecido pelos organizadores, não prejudicando as atividades que virão na sequência, o que requer preparação e ensaio antes da palestra. As pessoas são visuais, mas os slides devem ser apenas um lembrete para as falas, não devem ser abarrotados de textos que ninguém consegue ler. Uma ótima apresentação precisa ter um ou dois slides com a síntese das ideias apresentadas e apenas um de agradecimento e com os contatos. É isso! Todos vão lembrar do palestrante e procurá-lo em redes sociais e no Google se gostarem do seu “conteúdo”, ele não precisa se exibir, não precisa vender nada, basta mostrar que sabe o que foi ali apresentar, se alguém quiser comprar seus serviços saberá como encontrá-lo.

Para que ninguém se assuste com minha decisão sobre não participar mais de congressos de gestão, quero dizer que há inúmeras outras formas de apreender e manter educação continuada de alto nível. Por exemplo, para quem ainda não leu, aqui estão alguns livros que recomendo que todo gestor que almeja trilhar uma carreira de executivo de sucesso tenha na sua lista de leitura: “O gestor eficaz”, de Peter F. Drucker”; “Managing: desvendando o dia a dia da gestão”, de Henry Mintzberg”; “O fim da liderança: como a liderança mudou e de que forma podemos resgatar sua importância”, de Barbara Kellerman; “Antifrágil: coisas que se beneficiam com o caos”, de Nassim Nicholas Taleb; “Previsivelmente irracional: como as situações do dia a dia influencia as nossas decisões”, de Dan Ariely; “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, de Daniel Kahneman; e um bom exemplo brasileiro está em “Gerenciamento da rotina do trabalho do dia a dia”, de Vicente Falconi Campos.

Como não acredito em gestão eficaz sem conhecimento pelo menos mediano de matemática aplicada a negócios, eu recomendo algum curso de estatística descritiva e probabilidade e a leitura de “Matemática aplicada a administração e economia”, de S. T. Tan. Da mesma forma, na era da mudança, é preciso saber algo sobre metodologias ágeis para realizar projetos (hoje em dia tudo é projeto) e minha dica é “Sprint: o método usado no Google para testar e aplicar novas ideias em apenas cinco dias”, de Jake Knapp.

É preciso que todo evento tenha um certificado, isso é importante para alunos de graduação comprovarem atividades extra curriculares relevantes, servidores públicos agregarem à pontuação de carreira, e o pessoal da área acadêmica incluir em seu currículo Lattes. Esse certificado não pode ter erros de português nem falhas de revisão de jeito nenhum!

Não precisa radicalizar e parar mesmo de ir nesses eventos, mas escolha bem em quais vai querer realmente participar, analisando melhor a relação custo-benefício. E guarde seu tempo escasso e seu dinheiro precioso para coisas muito mais importantes para a sua vida. Por exemplo, durante dois anos, economize o máximo que puder. E no ano seguinte vá passar uma semana com sua família, seu filho ou seu amor em Los Angeles, San Francisco, New York, Paris, London, Milan ou Tokyo. Essas são as cidades consideradas berços de tendências no mundo. Basta três dias passeando e se divertindo nesses lugares com quem você ama e terá aulas impagáveis de gestão e inovação, vislumbrando possibilidades de novos negócios para startups que nunca encontrá em congresso de gestão algum.

Como dizem Heather Staker, Michael Horn e Clayton Christensen em “Blended: usando a inovação disruptiva para aprimorar a educação”, quando o ensino a distância entrar apenas na sua puberdade, só sobrarão os eventos presenciais que souberem transformar conhecimento em valor, e esse está longe de ser o caso dos congressos de gestão. Assim como não foi o Uber que aniquilou as empresas de táxi convencionais, nem foi a Netflix que fez mudar radicalmente o cinema que todos conhecíamos, os congressos de gestão mataram a si mesmos porque simplesmente não souberam se reinventar diante de tantas novas formas mais interessantes de aprendizagem e nem de adequar maneiras de apresentar conteúdos eficazes para resolver os problemas das empresas. Agora é tarde demais!

Jerônimo Lima

CEO da Mettodo

jeronimo@mettodo.com.br

Share Button

Uma resposta para “O declínio da educação corporativa como ela é e o fim dos congressos de gestão”

  1. Muito bem colocado por você, Jerônimo. Há muito, já não participo destes congresso de ferramentais modísticos.
    Quando consultado por clientes sobre qual ferramental deveriam estar usando nestas questões de gestões, respondo simplesmente citando a frase famosa de Arquimedes: “Use uma alavanca e um ponto de apoio e levantará o mundo”. Olham-me com ar “de está maluco” e ganho uma consultoria. O ponto de apoio está na cultura de cada empresa e a alavanca é específica para cada problema de gestão. Uso o arroz com feijão das ferramentas tradicionais, mas atualizadas pela tecnologia para os problemas velhos que se vestem de roupas novas. O resto é blá, blá, blá.
    Paulo Cesar Azevedo
    Consultor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *